Fui acordado. Odeio ser acordado, mas o Tom é tão chato que me fez acordar às nove da manhã. Nove da manhã! Isso é muito cedo pra mim. Que horror.
– Eu estou certo. Tem que acordar cedo, você tem que sair as duas da tarde, Bill! Fiz um favor a você. – Eu tinha até em esquecido que combinei de sair com a Lara.
– Ah, verdade. Desculpa.
– Tem que me ouvir antes de girar a baiana.
– Fazer o que?
– Nada. Gírias de outro lugar. – Me alcançou o prato de torradas. – Eu fiz, porque você suja tudo quando cozinha.
– por que está sendo tão gentil, Tom?
Ele bufou e saiu sem responder. Acho que foi para o jardim com os cães. Não sei o que está dando no meu irmão, mas tenho que descobrir. Vou descobrir depois que tomar banho, porque o sono está me consumindo.
Tomei café, lavei a louça, peguei minhas roupas e fui para o banho.
Após os meus trinta minutos de “queimando a pele” saí do banheiro. Aquilo está quente demais, eu não sinto tanto frio assim para usar naquela temperatura. Vou pedir para o Tom comprar outro quando estiver com tempo.
Depois de me arrumar, fui até o quarto do suspeito. Sério, o Tom está muito calmo, muito certinho e muito para baixo. Tenho certeza que não foi coisa boa que aconteceu com ele.
– Tom? – Abri a porta e o encontrei dormindo de novo. Tipo, o preguiçoso da família sou eu, com licença! – Tom? – Me aproximei. Ele ainda dormia.
Seu celular estava em cima da mesa, então peguei e desci para a sala.
– Vamos ver... – Catei o numero daquela tal de Carol. Mas tinha um problema... Tinha cinco Carol’s no celular dele. Eu sei, eu sou muito persistente. Peguei o telefone de casa e fui ligando para elas e perguntando quando foi a ultima vez que viram o Tom. Na terceira, acho que acertei.
– O que tem o Tom? Eu o vi sim, mas não foi muito legal não.
– Humn... Eu sou o Bill. Irmão do Tom.
– Ah, que honra ter você me ligando. – Isso não foi de verdade, veio carregado de ironia. – Seu irmão já me atormentou o possível. O que quer?
– Falar sobre isso. Não fica brava com ele, por favor.
– O Tom pediu para você fazer isso? Que coisa mais ridícula!
– Não! O Tom está dormindo. Sério, ele vai brigar muito comigo quando descobrir que eu te liguei. Ele odeia que eu me meta com as garotas dele, mas é importante. E para de ficar na defensiva. Chega a ser uma falta de classe. – A garota devia estar vermelha já.
– Ok. Desculpe-me, mas eu estou trabalhando agora. E vir me atormentar para falar sobre o Tom...
– Olha, nem vem. Eu sei que você gosta dele. Pode esconder isso do meu gêmeo. Mas não de mim.
– Ah é? E tirou isso da onde?
– O Tom chegou aqui em casa puto da vida porque você xingou ele e não quis dormir com ele. Cara, ninguém faz isso. O Tom passou três dias com você, sendo que ele não passa nem vinte e quatro horas com uma garota. Você disse que não ia transar com ele, isso já me deixa bem claro certas coisas.
– Nossa, você é um gênio! – Começou a rir. – Vai se catar cara. Seu irmão é uma criança e eu não preciso disso pra minha vida. Não me liguem mais, ok?
– Espero que não tenha ninguém perto de você quando você desligar o telefone. Por que eu sei que tu vais chorar, porque eu to jogando tudo na sua cara.
– Aí tudo bem! O que você quer de mim?
– Fala com o meu irmão. Da uma chance pra ele.
– Vou pensar. Agora me deixa trabalhar?
– Onde você trabalha?
– Não te interessa! – Desligou na minha cara. Isso é algo que as mulheres fazem como todo mundo ou só comigo?
Deixei o celular do Tom no quarto dele onde eu havia pegado e desci para assistir televisão. Depois de uns trinta minutos ele desceu e veio se sentar ao meu lado.
– O que disse a ela? – Merda!
– Ela quem?
– Bill, nasci da mesma barriga que você.
– AH, eu não disse nada demais...
– CARA, porque mexeu no meu celular? Eu não faço isso com as suas coisas. Por que falou com a Carol? Eu por acaso peguei e liguei para a Lara? Não! Isso é falta de educação. – Eu pensei que ele estava calmo, mas ele estava gritando e bravo.
– Tom mas eu...
– Tu o caralho! Só quer se achar o sábio em tudo. Bill! Te liga, eu tenho meus problemas, e a menos que eu os compartilhe com você, você não tem que se meter. Vai procurar algo para fazer, algo que realmente importa. Eu não quero me incomodar mais.
– Mas você gosta dela, Tom você...
– EU NÃO GOSTO DE NINGUÉM. Que merda! Tu sabes muito bem, tu sabes que não é assim pra mim. Eu não sou como você, eu não sou como os outros! Tom Kaulitz não PODE GOSTAR DE NINGUEM. – Eu queria muito xingar ele. Mas o tom de voz do Tom era tão alto, que se eu começasse a discutir ia dar briga. E olha o nosso tamanho.
– Mas você pode mudar isso. Tem que entender que um dia você poderia começar a gostar de alguém.
– Cala a boca! Cala a boca Bill! EU ESTOU FICANDO MUITO BRAVO COM VOCÊ! – Ficou apontando pra minha cara como se fosse o Hitler né! Ai, eu não to gostando disso. – Quer saber? Você não á sair? O que ainda está fazendo aqui?
– Calma, são onze e meia ainda. Vou sair a uma da tarde. – Me levantei e fui para a cozinha, o Tom foi atrás. – Quer alguma coisa? – Isso me irrita.
– Sim. Dizer-te: EU TE ODEIO! – Ah que ótimo!
– Ok. – Dei de ombros e ele sai. Não, ele saiu mesmo. Foi para sei lá onde, abriu a porta e saiu.
Agora desanimei total. Por que eu odeio brigar com o Tom. Odeio ficar com essas coisas bobas, porque moramos juntos e assim... Como vou ficar bravo com alguém que mora comigo, nasceu comigo e faz parte de mim? É ruim. MUITO ruim.
Meu celular começou a tocar, eu atendi rápido.
– AI o que foi?
– Nossa, desculpa.
– AH, não não. Desculpa-me. Quem fala?
– Ah Lara! Tudo bem com você? – Ela pareceu preocupada.
– Não. Olha, nem sei se vou poder sair hoje.
– Aconteceu alguma coisa? Sua voz está estranha mesmo. Você estava chorando?- Que isso!
– Chorando não! Mas estou bem mal.
– Brigou com o seu irmão?
– Você é maluca. – Ela riu.
– São coisas fáceis de deduzir, é sério. Mas então, vamos sair sim! Ai eu posso te distrair, e posse te ajudar, caso esteja com problemas. Não pode ficar em casa, deprimido e com vontade de chorar.
– Que coisa você! Então vou sim. Pode ser um pouco mais cedo? Eu quero sair agora de casa.
– Tudo bem, eu já estou aqui na biblioteca mesmo. Beijo. – Desligou.
Peguei minhas coisas e saí. Tive que usar o GPS para achar a tal biblioteca. E mesmo que no começo alguns fotógrafos tenham me seguido, pararam. E isso me deixou feliz. Era a quarenta minutos da minha casa, então... Quando cheguei já passava do meio dia.
Tinha pouquíssimas pessoas na biblioteca. E no fundo, perto de uma janela que clareava toda a parte leste da biblioteca, estava uma garota. Deveria ser a Lara, pelo menos era parecida com a descrição que ela me deu. Caminhei até ela, e mesmo fazendo um silêncio inumano ela se virou rindo e disse.
– Não da pra ler com esse barulho.
– Lara? – É, ela era bem bonita.
– Oi Bill. – Levantou-se e me deu um abraço. – Senta ai. – Apontou para a cadeira.
– Hã, que mal lhe pergunte... Por que está lendo um livro em branco? – Sério. O livro tinha as páginas em branco, e com a luz do sol nele, mostrava ainda mais que não havia nada ali.
– O livro não está em branco. Me dê sua mão. – Ela nem pediu, ela pegou mesmo. E quando encostou a ponta do meu dedo indicador na folha branca. Pude sentir que havia coisas ali. – Você sente?
– Braile? Consegue ler isso? Eu posso até sentir, mas deve ser muito difícil aprender isso.
Ela soltou a minha mão e desviou o olhar. Pareceu um clima tenso.
– Como está o seu irmão?
– O Tom? Ele disse que me odeia, me xingou e saiu de casa antes de mim.
– Ah, não fica mal. Ele está de cabeça cheia, vai ver tudo se resolve, é assim com os irmãos.
Eu nem respondi. Ela também não falou. E eu sempre tenho que começar o assunto, parece que as pessoas não querem falar comigo!
– Aqui só tem livros em braile? – Pelo que eu percebi, as pessoas estavam lendo livros sem letras!
– Sim.
– O que? É divertido e eu não sabia ou você não enxerga? – Não foi com o tom de insulta. É que pareceu brincadeira.
– Depende. Eu acho ler divertido. – Ela levantou e foi até uma prateleira onde tinha uns livros enormes. – Ah isso é injusto! – Disse ela na ponta dos pés sem conseguir alcançar os livros no alto da estante.
– Deixa que eu pego. – Passei por ela e peguei o livro. – Você é baixinha.
– Há, joga na cara vai! – Fomos até a recepção e ela retirou o livro. – Quer comer algo? É hora do almoço.
– Quero sim. Aonde vamos? – Ela pegou a mochila e caminhou até a porta. Eu tropecei três vezes só nesse pequeno percurso. - Caramba, porque tem essas coisas no chão?
– São saliências. Pra as pessoas que não enxergam, afinal, isso é uma biblioteca para cegos. Dã!
– E porque vem aqui?
– Por que gosto de andar nesse chão estranho. – Disse brava.
– Sério? – pode ser um gosto... Sei lá.
– NÃO! – Se virou e começou a andar. – Vamos logo.
Eu não entendi nada. Decidimos que iríamos almoçar em um restaurante ali perto mesmo. Parece que a Lara conhece todos! Por que todo mundo da oi para ela. E todos abraçam e dão beijo. Eu me senti muito comum perto dela. Chegou até ser engraçado.
O Celular dela começou a tocar e a mesma atendeu em um ato.
– Alô? [...] Eu sei que esqueci, mas não se preocupa eu sei voltar sem! [...] Mãe, calma, eu faço o mesmo caminho todo o dia, [...] Ok, te amo. – Desligou.
– Problemas?
– Nada Não. Minha mãe sempre preocupada. – Sorriu. – Vamos comer logo.
Ela é muito divertida, mas parece estar sempre disperse ao assunto. Como se não estivesse ali. Ou então, pelo fato de olhar tudo e nunca parar quieta. Ela me sujou com o molho. E disse que deveria estar muito engraçado. Meu rosto deveria estar lindo com maquiagem e molho.
– Você usa maquiagem!?!?
– Sim. Não está vendo? – Até me assustei.
– Cara, pensei que tinha ficado bem obvio.
– O que?
– Posso te ouvir, te sentir, mas com tudo isso, eu não estou te vendo! Eu só finjo muito bem. – Espera ai um pouquinho...
– Você não enxerga?
– Não.
– Então como você anda por ai sem bater nas pessoas, não tropeça e nem ficou errando o caminho na biblioteca?
– Prática. Está bravo?
– Claro que não! Isso é muito show! – Eu nunca tive alguém cego como amigo. Tipo... Ela não parecia nada com uma pessoa sem visão. – Quantos dedos têm aqui? – Levantei dois dedos.
– Dois.
– AH! Você enxerga sim.
– Não, mas é que pela rapidez que você moveu sua mão, e pelo fato de que normalmente nós fazemos um vê com os dedos da mão... Resumindo, levantar dois dedos da mão é a forma de numero mais rápida do ser. Bom, isso é coisa de nerd, mas eu chutei e acertei.
– Você é um alien.
– Essa foi boa.
O resto do almoço foi muito bom. Eu apostaria toda a minha grana que era mentira o fato dela ser cega. Tipo, a menina não tem nada, nem os olhos dela que são azuis, não entregam. Ela é muito normal.
– olha Bill. Espero que não tenha se assustado com o meu... Problema. Mas eu tenho que ir.
– Hey, eu não tenho problema com essas coisas. E eu NUNCA ia pensar que você é cega, e mesmo sendo, não muda que você é minha amiga.
– Sou sua amiga?
– Era pra ser...
– Ok. Sou sim. – Balançou a cabeça. – Sério, eu vou nessa. – Passou por mim e parou na frente do balcão. – Tina, chama um taxi pra mim.
– Ah Maria não veio com você hoje menina? – Perguntou a balconista.
– Ela brigou comigo. Dessa vez ela ta brava mesmo.
– Ah, eu posso te levar em casa. – Disse. Tanto ela quando a balconista ficaram me olhando.
– Você não é o cantor daquela banda...
– Sou. – Disse triste. – Sou sim.
Mais alguns minutos e eu convenci a Lara a aceitar minha carona. A casa dela não era muito longe dali. Então só durou uns quinze minutos.
Eu só ia largar a menina em frente a casa dela, mas a mãe dela estava esperando na frente de casa. E eu tive que descer para dar Oi. Fiz minha cara mais simpática ao cumprimentá-la .
– Mãe, esse é o Bill. Meu... Amigo que eu nem sabia que era meu amigo.
– Olá Bill. – Apertou a minha mão. – Quer entrar? Eu fiz agora uns biscoitos com gotas de chocolate.
– Mãe...
– Cala a boca Lara. – Uia.
– Bill, está pronto para comer biscoitos até morrer? Assim é que a minha mãe faz.
Eu sei que não era um amigo de muitos anos, mas a mãe dela era muito fofa. Eu realmente morri comendo biscoitos. Espero que isso não em faça mal, porque elas são muito queridas. Depois, quando eram umas quatro da tarde o pai da Lara chegou. Ele era alto, não mais que eu, e tinha uma barbicha bem estranha.
– Ola garoto, mais um amigo da Lara?
– Sim sim. – Me senti intimidado.
– Vou ali na rua fumar, aproveitem ai. – Quando ele falou isso...
– Posso ir junto? – Perguntei. Ele assentiu.
Aproveitei que a Lara e a mãe dela estavam arrumando as coisas e eu fui com o pai dela para a sacada fumar.
– Conheceu a Lara como?
– Ela em ligou por engano, e ai a gente começou a se falar. Ela é legal.
– Ela te ligou por engano?
– Sim. Queria falar com um amigo, ou namorado não sei.
– Ah. Sim... Posso te contar uma coisa Bill? – Ele estava sério. Quase deixei meu cigarro cair.
– Claro.
– Esse amigo que a Lara quer tanto falar. Morreu. Faz alguns dias, e ela não sabe disso. Então... Espero que não vá chatear ela. Por que daqui a um tempo vamos ter que contar. E duas coisas ao mesmo tempo não vão dar. – Coitada. Coitada mesmo. Fico pensando... Se o Gus ou o Ge morrem e ninguém em conta. Acho que eu ia acabar sacando. – Entendeu?
– S-sim. Pode deixar. – Sorri.
– Ok. Vamos lá para dentro, você é bem estranho... Mas fui com a sua cara.
– Ah, que bom. – Vou cavar um buraco e me enfiar dentro.
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